quinta-feira, 26 de abril de 2012
TEMPO E PODER
O exercício do poder é regido por um tempo próprio: norteado, sobretudo, por interesses econômicos e eventualmente sócio institucionais. Na Argentina não foram necessários mais que 15 dias para que Executivo e Legislativo – numa sintonia fina – expropriassem a exploração petrolífera da espanhola YPF/Repsol. Na ausência de um plano energético a longo prazo, o governo argentino não só possibilitou a predominância acionária da Repsol como também se descuidou do descumprimento do cronograma de investimentos com ela previamente acordado. Ao invés de punir a exploradora confiscando, ao longo do descuido, tão somente as áreas não exploradas, a presidência argentina aproveitou o descompromisso parcial para convenientemente reabsorver todo um segmento, crucial e lucrativo, sob a alegativa de soberania.
Em uma quinzena a quebra unilateral do contrato bilionário portenho-espanhol se converteu numa imposição inquestionável aos deflagradores da ruptura. Ouso agora estabelecer uma comparação e assim voltar ao cerne de minha abordagem: o tempo necessário para que mudanças legais se convertam em decisões formalizadas. Nesta quinta-feira (26/4/12), o Supremo Tribunal Federal, após 9 anos de impasse, se pronuncia sobre a pertinência, ou não, da adoção do sistema de quotas raciais nas instituições de ensino superior. Os argumentos, favoráveis e contrários, contaminados pela mais autêntica hipocrisia, reportam-se sobre constitucionalidade, direitos iguais, raças indefinidas, perdas históricas e resquícios da escravatura.
Simular o resgate de toda uma dívida sócio educacional, aos 35 minutos do segundo tempo, premiando com cotas pretos, pobres e mestiços que vivenciaram na escola pública a ineficiência, a omissão e a inoperância públicas, me soa como o suprassumo da hipocrisia governamental. Lançar estes profissionais que guardam uma flagrante defasagem em relação a seus pares, oriundos da escola privada, me parece relegá-los à rejeição, ao aviltamento salarial ou desemprego. Melhor não seria contemplá-los com cursos revisionais, custeados pelo estado, que os colocassem em condições de conquistar, por méritos próprios, suas vagas na universidade? E o que dizer de estabelecer cotas, ai sim, na origem da formação estudantil pública. Por que não oferecer aos alunos talentosos e empenhados na superação de seus limites, desde seus primeiros anos, a chance de ingressar em turmas de reforço ou aprimoramento? Não é assim que os mais caros e cobiçados colégios procedem? Não são eles os primeiros a fomentar, por meio de competições intelectuais internas e externas, a autoestima do corpo discente e docente?
Relembro o pretexto deste artigo, concluindo que o tempo de expropriar é relâmpago, já o de formar pessoas é neblina: rala, desigual e insuficiente.
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