sábado, 17 de novembro de 2007

CHICO DESDE SEMPRE


A riquíssima obra de Chico converteu-se, ao longo das últimas quatro décadas, em minha primeira e indelével influência artístico-literária. Em 68 – quando tinha apenas seis anos – já me deleitava com o lirismo de suas composições. Fui apresentado a ele por tia Joene que o tocava, inclusive, em versão italiana, numa eletrola Philips, no quarto mais arejado da Pe.Valdevino. O auto-exílio nos idos de Medici e a parceria com Bardotti e Morricone foi a derradeira alternativa que Francisco encontrou para não interromper sua produção e evitar uma hospedagem compulsiva no DOI-CODI.
Diante da riqueza poética, alcance temático e político que sempre emprestou às suas criações relevei a voz e o canto limitados de meu ídolo. Penso que todos que o admiram o enxergam por este mesmo prisma complacente. Uma condescendência perfeitamente compreensível, até porque Chico sempre se espelhou nos grandes nomes do samba e um deles se fez por inventividade e cantarolar despretensioso.
Assim como Vinicius e Tom, Francisco Buarque de Holanda, somaram ao autêntico acervo nacional: lirismo e genialidade. A vasta e primorosa criação de Francisco se traduz por meio de uma combinação inusitada de versos, harmonias e melodias que sua extrema sensibilidade e rico arcabouço intelectual transformaram em pétalas, a exemplo de EU TE AMO:

Ah! Se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora com hei de partir

Ah!... Se ao te conhecer... dei pra sonhar fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós... nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como ?! Se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como ! Se nos amamos feitos dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não...Acho que estais te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir!


(Chico Buarque e Tom Jobim)
(Foto (magnífica):Zé Rosa)

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