sexta-feira, 8 de maio de 2009

LÁPIS-LAZÚLI


AO HOMENAGEAR UM CASAL AMIGO, AO FINAL DE SUA MISSA DE 57 DE CASADOS, LI O SEGUINTE TEXTO :
Em Coríntios 13 somos levados a refletir sobre o alcance do verbo amar. Esta homenagem ao casal Maria Alice Albuquerque e José Pereira Filho nos remete a este mergulho na profundeza de nossas almas para que recoloquemos o verbo amar no elevado patamar que lhe é de direito. Muito acima da reles condição a que tem sido relegado por quem o pronuncia como palavra vã.

E Coríntios nos ensina: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

Estou convicto de que os 57 anos de casamento de Dona Alice e Seu Pereira foram construídos com a renúncia e a ausência de soberba de que nos fala Coríntios. E é evidente que quando se comprometeram diante de Deus, no dia 10 de maio de 1952, sob as bênçãos de Nossa Senhora do Carmo - jovens e imaturos - nem de longe tinham a dimensão do quanto teriam de abdicar entre si e para muito além da compreensão de todos nós. O que dizer da renúncia intempestiva de três filhos: um recém-nascido e outros dois no fulgor da juventude.
Mas a vida nos impõe o ato contínuo de seguir por aqueles que aqui ficaram e até mesmo pelos que já se foram. E eles seguiram... E seguem honrando a memória dos amados pais que os trouxeram ao mundo e lhes proporcionaram os primeiros flertes adolescentes sob a visão de uma Rocha Lima entremeada de vacarias...aquela da primeira metade do século passado. Faço menção aos criatórios porque do leite deles ordenhado e de outros já esquecidos no passado das fazendas Umari, Pão de Açúcar, e aqui mesmo na Granja da Saúde, desenhou-se parte expressiva do sustento desta família.
Mas voltemos aos tempos de namoro que nos idos de Dona Alice e Pereirinha trazia em si o tempero adicional de olhares furtivos, conquista obstinada... fiscalização implacável. Seu Pereira havia se transferido de Quixadá - onde dividia os estudos com a venda de tecidos na loja do pai - para em Fortaleza submeter-se a curso de Admissão. Ao avançar em seu propósito graduou-se em Ciências Contábeis e Atuariais, alicerce acadêmico para sua bem-sucedida carreira no segmento farmacêutico.
Dona Alice que já havia passado pelo Visconde do Rio Branco – onde leu seus primeiros romances – migrava à época para a Escola Doméstica São Rafael. Lá absorveu muito dos conhecimentos que a tornaram uma mãe e esposa pródiga em predicados: paisagista habilidosa, culinarista refinada e pintora talentosa, como atestam as paredes da casa ali ao lado. Os cômodos daquela casa, a amplidão desta propriedade e das moradias que a antecederam testemunharam o quanto Dona Alice e Seu Pereira se esmeraram para que predominasse o amor no convívio de sua família. O amor incondicional e desinteressado de que nos fala Coríntios. A gentileza e a generosidade dos que cultivam amizades como se de begonhas, bicudos, samambaias e orquídeas tratassem, todos os dias à sua janela, nestas frutíferas e bem vividas bodas de Lápis-Lazúli.

Nenhum comentário:

AUTOFALANTE

AUTOFALANTE
O DONO DA VOZ